"Nada torna, nada se repete, porque tudo é real."
*Alberto Caeiro

quarta-feira, fevereiro 13, 2008

amor e outros crimes em vias de perdão*



1

tu nunca hás-de entender o tamanho das noites
em que gastei tudo o que havia
por dentro dos meus olhos
os rios que de ti desaguaram sempre
nas minhas veias

eu não sabia
ou talvez já o tivesse esquecido
como podem ser mortíferas as cinzas
das palavras que um dia tiveram asas

e ainda mais mortíferas as garras
que nos destroem com os pequenos medos quotidianos
a que não podemos escapar
porque as sílabas da paixão são sempre
os primeiros objectos a serem retirados do quarto
para que tudo regresse à prateleira certa
e de manhã a poeira nos vista
tranquilamente
como um hábito

e foi por isso que nessas noites morri muitas vezes
enquanto as secretas palavras de adeus alastravam
pela foz do teu desejo
e a minha pele se despia
vagarosamente
da tua

Alice Vieira, dois corpos tombando na água,Caminho


Como se fosse fácil tombar palavras sobre o papel e fazê-las entrar pele dentro, sem nos deixarmos entristecer. Este livro desassossegou-me da prateleira de uma livraria e agora que o seguro nas mãos temo regressar às suas páginas tantas e tantas vezes que afogar-me é tudo o que quero evitar.

terça-feira, fevereiro 12, 2008


Sarah Wilmer

hoje fiquei a ver-me fumar no reflexo nocturno da janela.

domingo, fevereiro 10, 2008

be_tween

lisboa é isto: apetecer ficar sabendo que se vai partir.
o porto é isto também.
e, assim, a vida vai-me acontecendo entre regressos.

sexta-feira, fevereiro 08, 2008

UNDER STRANGE SKIES*


*daniel blaufuks



há sempre beleza nas janelas mesmo quando espreitam nevoeiro dentro
de olhos embaciados pelo frio das manhãs
ainda assim os gatos escorregam pelos telhados
ainda assim as gaivotas sobrevoam contra o silêncio das bocas
tu abres e fechas a porta da rua sacodes a humidade dos sapatos no tapete
tinges de doçura os cabelos ao encontro dos teus dedos
o teu regresso é a minha única fuga
se te peço não ignores
deita-me nos teus lábios se souberes como
rasga-me o interior do medo
conta-me histórias de combóios perdidos nas tuas viagens
assinala-me a vermelho as cidades onde morreste no vazio de outro corpo
a casa imaginada no cimo da montanha a árvore a resvalar inquieta sobre o vale

à superfície da água respira-me do avesso
à tona à toa como se nadar fosse a mais complexa ciência
e eu fosse de todos os Homens o mais ignorante

*

(se te explicasse agora isto. esta flor. esta pétala a nascer-me por entre os dedos.este líquido perfumado a crescer-me nos lábios. se te explicasse agora. morrerias, de certo, por contágio.)

Ontem foi:

About me:

A minha foto
a entropia é a minha religião. alterno a leitura da bíblia com a interpretação de mapas e mãos. bebo, preferencialmente, azul. tenho, ainda, o hábito de escrever cartas_

Sopra-me ao ouvido: