"Nada torna, nada se repete, porque tudo é real."
*Alberto Caeiro

domingo, novembro 18, 2007

loosing my religion

regresso ao cine-teatro do Monumental

ao Luis A.,

Sobre o filme Control, de Anton Corbijn, sobre a vida de Ian Curtis, vocalista dos Joy Division, muito se vai escrever e falar nos próximos tempos. O meu contributo para esse "falatório" será modesto. Tinha 4 anos e alguns meses quando Ian Curtis se suicidou. Da história do grupo, até há dias atrás, pouco conhecia. A sua música também tardiamente me chegou aos poros. Isto é um facto. Outro facto é que, a partir do momento em que os Joy Division deixaram de ser completamente desconhecidos para mim, as capas dos seus discos, as letras das canções, o olhar soturno de Ian Curtis, a turbulência da sua música...tiveram os seus efeitos colaterais... Se os Joy Division não são uma das minhas bandas de culto isso deve-se simplesmente, não à sua descoberta tardia, mas, simplesmente, à minha eterna máxima de que sei, posso e quero viver sem ídolos.
Continuo a dizer pouco. Não posso escrever no mesmo tom que um verdadeiro fã dos Joy Division, mas também não consigo ser indiferente a este fenómeno. As canções dos Joy Division são um marco importante na minha história recente. Exorcizei já muitos fantasmas ao som das suas músicas...alguns dos meus amigos encontro-os aí, lá dentro, na forma como Curtis moldava o corpo à música, na sua obscuridade desconcertante, no desacerto das letras que escrevia.



Eu gostei deste filme. Da forma como o preto e o branco exacerbam as expressões sempre para além do vulgar de Ian Curtis, contextualizadas numa Inglaterra de ambiente socio-económico e cultural subdesenvolvido. Um Ian Curtis, que como todos os líderes míticos, possuía uma capacidade auto-reflexiva acima daquela que caracterizava quem o rodeava, nomeadamente a própria Deborah Curtis, que se auto-retrata no filme. Neste ponto, interrogo-me se terá havido aqui uma espécie de reconhecimento de que Annik Honoré teria uma personalidade e background cultural muito mais capazes de encaixar a soturnidade do espírito do vocalista dos Joy Division. Não interessa. Não quero ir por aí.



Miguel Esteves Cardoso na sua nota sobre o filme, publicada na Actual do Expresso, diz acreditar "que seja melhor sentir e gostar pouco da música dos Joy Division para poder ver este filme como o filme que, se calhar, é", querendo com isto rematar as razões pelas quais não consegue ver Control como um filme.



Sobre Ian Curtis refere que "era um grande cantor porque era capaz de encontrar a verdade dentro dele e cantá-la. Era incapaz de fugir dela; não conseguia cantar a fingir. Muitos bons e maus cantores dão tudo o que têm. O que fazia Ian Curtis é muito mais raro. Dava tudo o que tinha - e era."

Diz mais ainda: " A arte é mentirosa, e ai do artista incapaz de mentir. Foi essa a tragédia de Ian Curtis. Narrar essa incapacidade é um dos méritos do filme de Anton Corbijn."

(...)Isolation, Isolation, Isolation

Mother, I tried, please believe me
I'm doing the best that I can
I'm ashamed of the things I've been put through
I'm ashamed of the person I am

Isolation, Isolation, Isolation
(...)


MEC faz todo o sentido quando escreve: "A mania da verdade de Ian Curtis era uma loucura. A exposição emocional que alcançavam as interpretações dele, tornando-as avassaladoras, vem do mesmo excesso moral, da mesma falta de fronteiras entre a alma e o comportamento; entre a introspecção e a sua exibição compulsiva, como entrega e como punição."



Apeteceu-me, por diversas vezes, no decorrer do filme, juntar-me a Ian Curtis, ou melhor a Sam Riley, no palco, e electrizar os membros do corpo ao som desconcertante da música de Curtis, Hook, Morris e Sumner.

E termino como no filme, ao mesmo tempo que me abandono na escura sala de cinema, com uma tela gigante à frente, à espera de um pouco mais para além do fim.

Walk in silence,
Don’t walk away, in silence.
See the danger,
Always danger,
Endless talking,
Life rebuilding,
Don’t walk away.

Walk in silence,
Don’t turn away, in silence.
Your confusion,
My illusion,
Worn like a mask of self-hate,
Confronts and then dies.
Don’t walk away.

People like you find it easy,
Naked to see,
Walking on air.
Hunting by the rivers,
Through the streets,
Every corner abandoned too soon,
Set down with due care.
Don’t walk away in silence,
Don’t walk away.

5 comentários:

menina limão disse...

não obstante (...), este é um belo post.

Karin disse...

Não sei em quantas salas é possível ver o filme, em Lisboa. Aqui no Porto, creio que apenas o cinema do Bom Sucesso o tem disponível. O mesmo cinema que vai fechar e nos vai deixar deserdados de filmes menos hollywoodescos. Coisas à moda do Porto.

Mas lamentos à parte. Dá-me novidades, que eu ando sem saldo e 'armazenada'. Beijos*

esquesitinho disse...

"Isolation, Isolation, Isolation". No entanto, essa solidão - ou isolamento, como talvez lhe prefira chamar - é muitas vezes quebrada por pessoas amigas como tu.

E também muitas vezes isolado e ao som de Atmosphere, acabo por reconsiderar tudo e partir em busca do que não sei e dos meus amigos.

Abraço.

menina limão disse...

karin, não vai fechar irremediavelmente. estão a lutar para que tal não aconteça. seria uma tragédia.

Silvia Cruz disse...

como fã dos joy division só posso comentar qu este post está muito bom

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