"Nada torna, nada se repete, porque tudo é real."
*Alberto Caeiro

quarta-feira, outubro 03, 2007


©ana


por mais que se façam contas, a vida é curta. não me ofereço agendas.
destes dias, levo o cheiro a nevoeiro e a mar das corridas na praia. o trajecto das gaivotas antes do começo da cidade. as conchas e as pedrinhas recolhidas da areia molhada. o Fausto a combinar com as cores do entardecer, quando o céu lilás faz de tecto do tecto das casas. tu e eu no tapete da sala, com chá e bolachas de aveia. a escolher discos, a rir de tudo e de nada. a partilhar páginas de livros. cartas. e fotografias.
e depois a chegada da noite. a chaminé da antiga fábrica a dividir o horizonte. as janelas iluminadas por quem se sente regressar.
descubro-te um pêlo de gato na cor da camisa. e entorno o chá entre a ideia de nos nascer um beijo.
às vezes penso que é disto que gosto. das histórias que nunca chegam a acontecer. porque as que acontecem acabam sempre demasiado cedo. disto. da sopa de lentilhas ao lume. do cheiro a pimenta moída. e a coentros. disto. de DeVotchka a chegar como um lamento. a explicar how it ends. do cigarro que ainda não acendeste.
por mais contas que se façam, a vida é curta.
e esta é a cidade das fábricas perdidas. restos de chaminés e de telhados guardados em fotografias. espalhadas no tapete. no chão da casa. por baixo dos pés, dos corpos enleados, dos cabelos emaranhados. "caracóis marítimos". pêlos de gato. miar de gato. sono de gato. mãos a começarem onde as minhas terminam.
e a chuva a lembrar-me da roupa a secar no estendal.
quem, para além de mim, para reconhecer mais esta grande mentira?
viro a página. "olhos azuis, cabelo preto"*. e o sono que não vem.
mas a sopa está pronta.
e tu acendes, finalmente, o cigarro.

há-de ser mais um dia para a minha colecção.

Olhos Azuis Cabelo Preto, Marguerite Duras

2 comentários:

ana disse...

Pedaços de vida de um coração consciente de como os dias passam por ele. é o da margarida, mas poderia ser o nosso.

ana disse...

é o nosso. é o meu. é o dela. na verdade, faço apenas uso do título de um livro da marguerite duras. mas acabei por, por lapso, não ser muito clara a esse nível.

Ontem foi:

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a entropia é a minha religião. alterno a leitura da bíblia com a interpretação de mapas e mãos. bebo, preferencialmente, azul. tenho, ainda, o hábito de escrever cartas_

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