"Nada torna, nada se repete, porque tudo é real."
*Alberto Caeiro

terça-feira, janeiro 13, 2009

Brandoa, second skin II

A propósito deste texto que escrevi há mais de um ano - Brandoa, second skin - recebi agora um comentário do Diogo que acho que não pode ficar escondido nos arquivos deste blogue.
Diogo, não sei se te conheço, mas o facto de termos crescido no mesmo bairro, de termos referências comuns, já nos torna mais do que simples desconhecidos. A tua descrição trouxe-me à lembrança detalhes que eu já nem saberia descrever. E essa referência ao stor Bragança...ele é mesmo um marco para quem estudou naquela escola. Acho que lhe devo muita coisa. Afinal, o ensino precisa de professores que consigam sair um pouco da norma e levem os alunos a ver filmes que façam pensar e a ouvir música que não se escuta na rádio.
E, sim, havia um cinema por detrás do Palácio que já não é Palácio e o barracão já nem sequer existe...E a minha rua terminava no começo dos campos. Campos extensos, até ao horizonte, onde, dizem, vai nascer o maior centro comercial da Europa.

Obrigada, Diogo.




O poema lê-se, mas quem cresceu na Brandoa lê-se é no texto da Ana C. Mais? O toque da escola. Mais tarde, os sinos da Igreja. Os bombeiros e o toque do meio-dia. A cegonha no alto da chaminé da padaria. O cheiro a pão. O pôr do sol com o sol para trás do alto. O alto tem sempre muitas ruas por explorar. Algumas dão para o campo. A rua acaba e o campo começa. As ruas principais estão vagamente alcatroadas, as outras têm buracos e poças de água. Mais tarde vieram as escadinhas. O stôr Bragança joga ao cascalho meia-hora com os alunos. Sair da escola e ir para a rua. Chamar os amigos. fófiuuuuuuuuuuuuuu. A feira junto à escola preparatória. As regueifas e as entremeadas salgadas. No Verão, passar os dias na rua, ir vadiar para o trigo junto à rua da Paiã, onde há labirintos de Oliveiras e caniços. As hortas e os quintais, intermitentes com os prédios de 5, 6 e 7 andares sem elevador. Cuidado, ali na Serra, junto ao campo há ciganos. Não faz mal: o Russo, o Picha, o Gafanhoto e o Rui conhecem-me, a minha mãe já lhes deu roupa. O palácio. O palácio tem um barracão por trás que, dizem, já foi um cinema. Não sei, nasci em 1980. Nunca lá vi um filme. Nunca lá entrei. No Arco-Íris, há sempre drogados à porta, gostava de ir lá para dentro jogar, mas o Bacalhau está lá sentado e não me deixa, sou muito novo. Quando tiver idade, também já não vou querer lá ir. Aqui e ali há sempre uns cafés onde podemos jogar Street Fighter. Entras confiante, o dono pensa que tens idade. Subir às àrvores na creche junto às camionetas da LT, mas, cuidado, porque o Paixão anda sempre por aí. Ele não quer que se suba às àrvores. O polivalente serve para tudo. Os reformados jogam às cartas ao lado deste e sentam-se no largo nos dias de sol, logo pela manhã. A rua da Paiã vai dar à Parreirinha onde existe um monte de rocha branca suja com uma grande vista cá para baixo e para os casais lá para trás. Uma rua que dá para lá, tem o meu nome. Diogo Cão. Mas não gosto do Cão. Já chega.

Diogo

2 comentários:

Ginger disse...

De facto, só quem viveu na Brandoa como nós consegue perceber o que significa ter crescido num bairro com aquelas características. A verdade é que nunca deixamos de pertencer á Brandoa, mesmo depois de já estarmos fisicamente longe.

Ainda me lembro do cinema por detrás do Palácio, apesar de no meu tempo de infância, já estar desactivado. Hoje o Palácio da Brandoa é um Centro Multigeracional, um edificio totalmente moderno e, por grande ironia do destino, é o meu local de trabalho.

Absolutamente genial a escrita do Fernando... ele tem este dom de transmitir o que nos vai na alma (a nós que, tal como ele, crescemos na Brandoa).

Um beijo enorme!

Rute

ana c. disse...

não sabia que estavas a trabalhar naquele edifício. quando for lá, vou fazer-te uma visitinha. tomamos um café lá perto. agora só preciso de arranjar tempo.

beijos

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a entropia é a minha religião. alterno a leitura da bíblia com a interpretação de mapas e mãos. bebo, preferencialmente, azul. tenho, ainda, o hábito de escrever cartas_

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